Na manhã de quatro de Abril, quando a dona G., de uns trinta e poucos anos, moradora do apartamento quatrocentos e dois, até então muito conhecida pela sua adorada filhinha de quatro anos, muito sorridente e divertida, teve o ímpeto de, por motivos intestinais, defecar em pleno elevador, quando estava só, abstendo-se de toda sua moral e pudor, ato que lhe trouxera o conhecimento de todos os condôminos daquele edifício. O dia fora então, um sucessivo amontoado de desgostos, até que seu V., morador vizinho do apartamento quatrocentos e um decidiu ligar para a inspeção sanitária, para informar-lhes de tal ocorrência. Não bastasse o fato da montoada de sujeira que se acumulou no elevador devido aos detritos e as tão comentadas fezes da dona G., muitas pessoas sentiram-se tão nauseadas ao chegarem perto do elevador que preferiam subir de escada, e, os poucos que se aventuravam a abrir a porta, acabaram por vomitar no piso, alegando o fétido horror que lhes provocava ânsia de vômito incontrolável. Dona G., que por estas horas estava no seu trabalho, no edifício Central, na Avenida Rio Branco, mal desconfiava do terrível embaraço que passava pela voz dos outros condôminos quando muitos abriam a porta do hall principal e bradavam, em suas próprias gentilezas ou indelicadezas reclamações acerca do terrível fedor que tomava parte do local. Dona B., do trezentos e dois, tão esmerada em sua educação fina, usou quase todos os vocábulos que um dia aprendeu em sua extensa vida para dizer o que dona A., do quinhentos e seis disse em apenas quatro palavras, na sua própria ignorância: "Que cheiro de merda!". No final das contas, o homem da inspeção sanitária apareceu e puniu o prédio por má conduta social e por falta de medidas higiênicas, não só ligadas ao fato do elevador, mas também, pelas más condições do hall, algumas infiltrações de canos antigos e alguns focos de insetos, como baratas e ratos. Após o triste infortúnio, dona G. decidiu mudar de prédio, pois a notícia se espalhara rápido entre os condôminos e todos deixavam bilhetinhos ameaçadores ou gozadores na porta do apartamento quatrocentos e dois; não por isso e além mais, ninguém saberia do triste fato não fosse o porteiro do prédio desconfiar da estranha demora do elevador para se deslocar do quarto para o andar térreo. Mas ele, nesta tarde, tinha uma terrível coriza que lhe afetava o sentido dos cheiros, daí, não pôde perceber nada, até que alguém lhe tentasse chamar, o que de fato demorou tempo demais e o homem da inspeção sanitária já havia chegado para desarmar a tragédia. O episódio ficou conhecido então, como a "merda indigente", uma forma evasiva de fazer pouco da desgraça de terceiros, outros também, que são beatos da igreja de Nossa Senhora, que fica na esquina da rua, já alegaram ter visto algumas almas penadas no edifício e atribuem a eles a culpa do aparecimento das fezes no elevador, já que dona G., a suspeita número um do ato, nunca de fato se acusou.